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Georges Seurat e o Neo-Impressionismo.

 

O reservado e tímido pintor Georges Seurat (1859-1891), contudo um jovem de ação, único e orgulhoso, viveu recolhido num pequeno atelier, no boulevard de Clichy em Paris. Em comparação com outros artistas, como por exemplo, Vincent van Gogh ou Paul Gauguin, levou uma vida aparentemente pacata.

Só se interessava por questões de arte. Poderia discutir durante horas sobre a sua visão da pintura e expunha as mais novas teorias de cor e da arte, sem as quais um novo estilo de pintar não poderia passar. A sua perseverança tornou-o logo uma figura de referencia da nova cena artística parisiense, que na década de 80 do século XIX se separava cada vez mais dos ideais impressionistas – e que procurava novos valores.

                    O Jardineiro, 1882

Os mestres do Impressionismo, como Claude Monet, Auguste Renoir e Edgar Degas, estavam estabelecidos. O estilo destes foi imitado inclusivamente nos círculos do Salon de forma moderada. A espontânea, virtuosa e subjetiva aproximação dos impressionistas já não satisfazia muitos dos jovens pintores; eles precisavam fundamentos científicos para a arte e estavam por isso fascinados pela dedicação incondicional de Seurat à pintura e pela sua crença em regras verificáveis, que deveriam conferir uma nova força de convicção à pintura moderna.

Precisamente, o antigo defensor do Impressionismo, Émile Zola, voltara-se ao final dos anos 70, contra o simples esboço e natureza inacabada do Impressionismo. Seurat começou a perceber através da crítica que todas as forças se colocavam a serviço de uma nova pintura, que deveria através da ligação à tradição da arte, prolongar uma nova força e carisma.

                    O Farol, 1886

Segundo o escritor Arsène Alexandre, “Seurat era um daqueles cabeças-duras pacíficos, que pareciam ter medo de tudo, mas que no fundo não se intimidavam com nada. Ele trabalhava com afinco e vivia completamente retirado como um monge em um pequeno atelier”.

Ao contrário de seus antecessores impressionistas, Georges Seurat em seus estudos optou pela arte e seguiu o caminho da formação clássica.

                O mar em GrandCamp

O pintor Paul Signac (1863-1935) escreveu sobre o seu amigo Seurat: “Uma grande parte do seu tempo era passada na Biblioteca da Academia, onde contemplava livros, estampas e imagens”. Dos seus tempos de Academia, somente dois quadros são conhecidos, excetuando os desenhos. Já em 1879, Seurat abandonou a Academia e arrendou, juntamente com os seus colegas de curso, Ernest Laurent (1861-1929) Edmon Aman-Jean um atelier.


                                            Torre Eiffel, 1889

Em maio do mesmo ano, Seurat viu pela primeira vez na quarta exposição dos impressionistas, quadros que lhe abriram os olhos e o libertaram da pintura e das intransigentes normas da Academia.

Seurat atingiu no desenho uma grande maturidade. Desenhava com giz Conté rijo e preto no papel granuloso Ingres, no qual tracejava nos finos realces do papel e libertava mais ou menos a profundidade.

                O Canal de Gravelines

Através dessa técnica especial de tracejado nasceram ricas modelagens claro-escuras e tons cinzentos cheios de nuances. Seurat tinha consciência de ter uma grande mestria no desenho, de tal modo que apresentou no Salon de 1883 duas folhas. O retrato de sua mãe a bordar foi rejeitado pelo juri, porém “O Retrado de Aman-Jean” foi aceite, provavelmente pela sua representação mais realista.


                                  O Retrado de Aman-Jean

A rigorosa estilização e simplicidade de motivos indica a vontade de abstração, que neste tempo liga Seurat a Paul Cézanne (1839-1906). Até mesmo os motivos simples conferem uma qualidade monumental pelo modo como estão definidos pelas linhas.

A evolução de Seurat mostra que ele, afastando-se de um ideal de arte académica, procurava o caminho para o Impressionismo, cuja técnica ele não dominava, mas onde queria incluir suas raízes.

Assim é o quadro a óleo “Os Camponeses”, influenciado por Jean-François Millet (1814-1875) e Gustave Coubert. Millet foi o artista que mais o impressionou.

                    Os Camponeses

Em estudos paisagísticos, Seurat reproduziu o efeito da luz com pinceladas impressionistas. A maneira de pintar impressionista está estreitamente ligada com um repertório de motivos. Inspitado pelas séries de quadros de Claude Monet, de quem foram vistos uma mostra representativa na sétima exposição impressionista de 1882, Seurat dedicou-se com mais força aos efeitos da luz no campo tal como os reflexos na água.

Em 1884 o juri do Salon oficial recusa “Banhistas em Asniéres” .  Na exposição da Sociedade dos Artistas Independentes em dezembro de 1884 o quadro foi tido em consideração por pintores e críticos. Arsène Alexandre escreveu “Banhistas em Asnières” legitima Seurat como o artista de nova escola, como um dos poucos que compreende como empreender uma grandiosa composição e aplicar nesta novos métodos.”

                                Banhistas em Asnières”, 1884

Na primeira exposição dos Independentes em1884, Paul Signac, que lá esteve representado com obras inspiradas em Monet, ficou impressionado com Banhistas em Asnières. Brevemente os dois artistas trocaram experiências e, sobretudo, as suas expectativas e esperanças relativamente à pintura.

Signac tomou conhecimento, através de Seurat, da Teoria do Contraste Simultâneo das Cores, de Chevreul. Seurat, em contrapartida, retocava algumas partes de Banhistas em Asnière ao mesmo tempo que a diferenciava mediante uma colorida estrutura pintada com pontos, seguindo o conselho de seu novo amigo.

                O Canal de Grandcamp

Seurat estudou freneticamente a Teoria do Contraste das Cores, de Chevreul e também a Teoria da Cor, de Rood. Estas teorias foram discutidas num círculo de pointores onde Seurat tinha sido introduzido por Paul Signac. Deste círculo faziam parte os impressionistas Armand Guillaumin e Camille Pizarro, tal como os escritores simbolistas Robert Caze e Gustav Kahn.

Arrancado do isolamento e confrontado com novas ideias, Seurat virou-se para o seu próximo grande quadro “Um Domingo à Tarde na Ilha da Grande Jatte”, com a qual ele alcançou um novo estilo e fundou um movimento artístico, o Neo-Impressionismo.

Na oitava e última exposição dos impressionistas, Seurat expõe “Um Domingo à Tarde na Ilha da Grande Jatte”. O crítico de arte, Félix Feneon, comenta a técnica e o estilo de Seurat no quadro com uma crítica extremamente objetiva.

                        Um Domingo à Tarde na Ilha da Grande Jatte

O pontilhismo é uma técnica artística muito precisa que requer um planeamento cuidadoso antes de iniciar uma pintura, uma vez que as alterações são muito difíceis de fazer. Apesar dos detalhes necessários, Seurat insistiu em produzir algumas das suas obras em enormes telas que levaram meses a completar,  dado ao nível de precisão que este artista sempre desejou.


                                                        A caminhada matinal

Seurat morre a 29 de março de 1891 com uma angina infecciosa. Deixa viúva a Madeleine Knobloch. Pouco tempo depois morre seu filho Pierre com a mesma infeção. O espólio do artista foi inventariado por Paul Signac. Madeleine recebeu alguns quadros e afastou-se completamente da famlia Seurat.


Fonte de pesquisa: Seurat, de Hajo Duchting

Fotos: Google


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