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Hopper: A representação da solidão

 

As figuras tipicamente solitárias das pinturas de Edward Hopper (1882-1967) refletem tanto a personalidade pessimista do pintor como os tempos em que ele se desenvolveu até atingir a maturidade. Nasceu em uma pequena cidade do estado de New York, filho de um lojista que lhe impôs uma educação estritamente baptista.

                                                                       A Automata, 1942

Invulgarmente alto, o jovem Hopper teve uma infancia solitária e livresca, e durante toda a sua vida odiou as conversas banais, preferindo muitas vezes estar sozinho e calado. Raramente discutia sua arte. Aos 18 anos ingressou na New York School of Art, a fim de se preparar para ilustrador de revistas.

Por volta dos 25 anos, visitou Paris por duas vezes, onde se interessou pelo trabalho dos Impressionistas, quando esses já estavam um tanto ultrapassados.

Até 1913, o ano do famoso Armory Show em New York, o público norteamericano pouca experiencia direta tinha dos progressos da arte europeia – desde o Simbolismo, o Impressionismo e até mesmo o Cubismo. Embora o impacto da nova arte europeia exigisse tempo para amadurecer, estava-se, sem dúvida, em um momento de mudanças. Hopper tomou parte na exposição e realizou uma das suas primeiras vendas.


                                                                  Lobby de hotel, 1943 

Em 1924 casou-se com Jo Nivison, atriz convertida em pintora. O casal viveu em New York e possuía uma casa para férias em Cape Cod, Nova Inglaterra. As relações do pintor com a mulher, eram, por vezes, turbulentas. As suas personalidades diferiam muito. Jo refere no seu diário discussões e a dificuldade que tinha de comunicar-se com o marido.

Hopper desprezava a arte abstrata e conservou-se 'a margem das correntes modernas. Apesar disso, os pintores abstratos admiravam a forte geometria da sua obra, a qual encerrava uma inconfundível sensibilidade moderna.

                                                          Luz do sol  na Cafeteria, 1958

O sucesso alcançado com uma exposição de aquarelas (1923) e outra de telas (1924) fez de Hopper o autor de referência para os realistas que pintaram cenas americanas. Como, por exemplo, o Room in New York. A sua evocativa vocação artística evoluiu para um forte realismo, que se revela ser a síntese da visão figurativa combinada com o sentimento poético que Hopper percebe nos seus objetos.

Através de imagens urbanas ou rurais, imersas no silêncio, num espaço que é ao mesmo tempo real e metafísico, Hopper consegue projetar no espectador um sentimento de desapego ao sujeito e ao ambiente em que está fortemente imerso, através de uma cuidadosa composição geométrica da tela, por um jogo sofisticado de luzes frias, nítidas e intencionalmente "artificiais", e por uma extraordinária síntese de detalhes. A cena é quase sempre deserta; nos seus quadros quase nunca encontramos mais do que uma figura humana, e quando há mais do que uma, o que se destaca é a alienação dos sujeitos e a consequente impossibilidade de comunicação, o que agrava a solidão. Alguns exemplos deste tipo de trabalho são Nighthawks ou Office in a Small Town (1953).

                                                       Escritório a noite, 1940

Nos finais dos anos 30, conquistou fama por mérito próprio.

Mesmo depois do sucesso, o artista preferia roupa surrada, carros usados e restaurantes baratos. Em 1942 realizou com sua esposa uma viagem de 3 meses, de carro, cruzando todo os Estados Unidos (ida e volta) e muitas de suas obras refletem algo que viu ou viveu nessa viagem.


                                                             Falcões noturnos, 1942

Muitas das obras de Hopper representam pessoas isoladas em espaços anônimos, como restaurantes, escritórios e quartos de hotel. Nunca se sabe com clareza porque estão ali ou que laços os unem. A sensação principal é de efemeridade – pessoas de passagem, que de certo modo não pertencem ao cenário em que figuram.

Nenhum dos quadros conta qualquer história. Cada um deles é como uma moldura cinematográfica a sugerir que a cena se vai movimentar e o seu significado se tornará claro. Apaixonado por cinema em plena época dos filmes preto e branco, Hopper foi, sem dúvida, influenciado pelas técnicas cinematográficas, que se apoiavam muito em ângulos de visão, contrastes de luz e sombra e composições memoráveis para compensar a ausencia de cor.


                                                                  Chop Suey, 1929

Hopper tinha tendencia para concepções fortes e simples – uma qualidade que o tornou popular como artista comercial (os anunciantes e os editores de revistas gostavam de imagens arrojadas e diretas). Hopper envolvia as suas criações num sentimento inquieto de tensão não explicada.

                                                                              Gaz, 1840          

                                                           Hopper - detalhes de obras diversas


Uma coleção de  236 trabalhos de  E. Hopper.



Hopper: “O meu objetivo na pintura foi sempre a transcrição mais exacta possível da minha impressão da parte mais íntima da natureza”.

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